|
|
Please use this identifier to cite or link to this item:
http://hdl.handle.net/10174/42047
|
| Title: | Segurança hídrica: origem e evolução no contexto do antropocentrismo |
| Authors: | Saito, Carlos Cerezini, Monise Gomes, Lenora Novais, Maria Helena Mendes, Ana Morais, Manuela |
| Editors: | Morais, Manuela Mussagy, Aidate |
| Issue Date: | Sep-2025 |
| Citation: | Saito C., Cerezini M.T, Gomes L., Novais M.H., Mendes A., Morais M., 2025. Segurança hídrica: origem e evolução no contexto do antropocentrismo. Livro de resumos do XXV Encontro da Rede de Estudos Ambientais de Países de Língua Portuguesa-REALP | I Encontro do Projeto de Consorcio ERASMUS AMbIente e GestãO – AMIGO, pp. 113-117, 01-05 Setembro 2025, Évora, Portugal, ISBN | 978-972-778-472-1. https://www.realpamigo2025.uevora.pt/wpcontent/uploads/2025/10/LIVRO-DE-RESUMOS-REALP-AMIGO2025_20_10_2025.pdf |
| Abstract: | ‘Segurança hídrica tornou se um termo que tem sido gradualmente usado para
apoiar planos para enfrentar os desafios globais relacionados à água, abrangendo
questões relacionadas à disponibilidade de recursos hídricos, à inadequação da
qualidade, à gestão deficiente ou aos riscos de desastres (Cook Bakker, 2012).
A
definição de segurança hídrica varia e é necessário compreender melhor como
o conceito de segurança hídrica foi estabelecido, como mudou ao longo do tempo
e quais são as implicações para as políticas hídricas no avanço da conservação das
águas.
Este
trabalho tem como objetivo an alisar a evolução do conceito de segurança
hídrica e discutir suas implicações nas políticas hídricas.
O
conceito de segurança hídrica tem sua origem na abordagem de segurança
nacional, que considera a segurança do Estado nação e como evitar conflitos entr e
nações, de forma a garantir o abastecimento independente e de longo prazo de
água para seus territórios que enfrentavam escassez hídrica ( 1984; Starr,
1991; Jägerskog et al. 2014). O que era originalmente uma conceituação de
segurança nacional centrada no Estado, com forte envolvimento militar) foi
sendo ampliado e aprofundado, e as noções de segurança centradas no Estado
começaram a ser substituídas pelo conceito de segurança humana, colocando o
indivíduo como referente de segurança e as noções emancipatórias como objetivo das
políticas de segurança ( 2011). Ullman ( defendeu esse
processo de ampliação para abranger as questões que "( ameaçam
drasticamente e por um período relativamente curto degradar a qualidade de vida
dos h abitantes de um Estado, ou ( ameaçam significativamente restringir o leque
de opções políticas disponíveis para o governo de um Estado ou para entidades
privadas e não governamentais ( grupos, corporações) dentro do Estado"
( 133). Foi nesse ce nário que pudemos encontrar o uso do termo segurança
hídrica pela primeira vez, como o principal desafio de recursos enfrentado pela
região do Oriente Médio e Norte da África, que em breve poderá ser elevado ao
nível de segurança militar nas salas de guerr a dos ministérios da defesa: “O
consumo de água para todos os usos ainda é menor do que a água disponível,
embora a água doce seja cada vez mais escassa em toda a região. Os desafios são
tornar a água disponível a um custo aceitável nos locais onde ela é m ais necessária
e melhorar drasticamente a gestão dos recursos hídricos existentes” ( 1991,
pp. 18).
Assim,
a água, devido à sua escassez e ao que foi chamado de estresse hídrico,
entrou no debate sobre segurança imersa na chamada "segurança alternati va”, que
inclui a segurança alimentar e nutricional: “1. Ameaças à civilização humana vindas
do ambiente natural que não são causadas pela atividade humana. 2. Ameaças da
atividade humana aos sistemas ou estruturas naturais do planeta quando as
mudanças fe itas parecem representar ameaças existenciais para (partes da)
civilização. 3. Ameaças da atividade humana aos sistemas ou estruturas naturais
do planeta quando as mudanças feitas não parecem representar ameaças
existenciais para a civilização” (Buzan et a l. 1998, pp.79 80).
A
evolução desse debate reforçou o papel vital da água na vida humana e nas
aspirações de subsistência, e o apego a esta nova estrutura de segurança humana:
“a segurança hídrica é uma condição onde há uma quantidade suficiente de água
com uma qualidade necessária, a um preço acessível, para atender às necessidades
de curto e longo prazo para proteger a saúde, a segurança, o bem estar e a
capacidade produtiva de posições ( comunidades, bairros ou nações)”
(Witter Whiteford, 1 999). O início do novo milênio trouxe uma perspectiva
mais ampla sobre as interdependências socioambientais, e a Parceria Global pela
Água ( apresentou outra definição para segurança hídrica: “toda pessoa tem
acesso a água potável suficiente a um custo acessível para levar uma vida limpa,
saudável e produtiva, garantindo ao mesmo tempo a proteção e o fortalecimento
do meio ambiente” ( 2000). Essa nova definição aborda uma importante
preocupação ambiental e a necessária interdependência entre a prote ção dos
ecossistemas e a disponibilidade de água para consumo humano. Essa
nova efervescência ambiental pode ser bem compreendida como uma
estratégia para priorizar politicamente a questão ambiental, associando a à
segurança, uma vez que segurança implica urgência, relevância e sobrevivência,
levando assim a um aumento do interesse público e a demandas por rápida
mobilização de recursos para garantir a segurança geral tão (Fischhendler e
Nathan, 2016).
Essa
mudança estratégica foi seguida por outras, que fi zeram alterações e
acréscimos à definição de segurança hídrica nos anos subsequentes: os interesses
econômicos foram incluídos no contexto de urgência (por exemplo, na definição
de Swaminathan, 2001, de que a segurança hídrica “envolve a disponibilidade de
água em quantidade e qualidade adequadas, perpetuamente, para atender às
necessidades domésticas, agrícolas, industriais e ecossistêmicas”), bem como a
proteção contra desastres, mas ainda em sentido absoluto (por exemplo, em
Cheng et al. 2004, de acordo com Lautze e Manthrithilake, 2012, a segurança
hídrica deve representar o acesso à água potável a um custo acessível para permitir
uma vida saudável e a produção de alimentos, garantindo ao mesmo tempo a
proteção do ambiente hídrico e a prevenção de desas tres relacionados à água,
como secas e inundações). A segurança hídrica permanece bastante
antropocêntrica, e a proteção do meio ambiente na segurança hídrica parece ser
buscada apenas para atender e sustentar os meios de subsistência e as necessidades
ind ividuais de água, segurança alimentar e o potencial para atividades econômicas.
Se
por um lado busca se conceitualmente prover de um arcabouço capaz de
proteger a humanidade da escassez hídrica, o crescente reconhecimento das
mudanças climáticas lança um n ível de incerteza que torna a segurança hídrica
mais difícil de ser assegurada. É nesse cenário que Grey e Sadoff ( associam
as ideias de risco e incerteza à segurança hídrica, pois a variabilidade natural já
existente será fortemente impactada pelas mudanças climáticas, levando nos a
esperar uma redução na disponibilidade hídrica nas áreas que já enfrentam
escassez hídrica e um aumento na variabilidade com extremos muito mais
extremos, onde a água é fornecida por chuvas ou fluxos de rios. Eles argumen tam
que as mudanças climáticas tornarão a segurança hídrica muito mais difícil de ser
alcançada e mantida. Na mesma direção, Scott et al. ( propuseram uma nova
definição unificadora: "A segurança hídrica constitui a disponibilidade sustentável
de quan tidades e qualidades adequadas de água para sociedades e ecossistemas
resilientes diante de mudanças globais incertas" ( 281), introduzindo a dimensão
da resiliência no conceito de segurança hídrica.
O
que poderia ser uma possibilidade de reforçar uma pr eocupação ecossistêmica
e a introdução da noção de resiliência foi sufocado nas brumas de uma nova
definição que se tornou hegemônica. Também em 2013, a ONU Água apresentou
uma definição para segurança hídrica que poderia tentar abranger a anterior, ao mes
mo tempo em que representaria, de alguma forma, uma visão universal do
termo: “Segurança hídrica é a capacidade de uma população de salvaguardar o
acesso sustentável a quantidades adequadas de água de qualidade aceitável para a
subsistência, o bem estar hu mano e o desenvolvimento socioeconômico, para
garantir a proteção contra a poluição transmitida pela água e desastres relacionados
à água, e para preservar os ecossistemas em um clima de paz e estabilidade
política” (UN Water, 2013). Na verdade, essa defin ição passou a ser amplamente
citada como a definição geral de segurança hídrica nos anos seguintes.
A
construção e a disseminação dessa visão hegemônica provavelmente
suplantaram iniciativas promissoras de avanço do debate em torno do conceito de
segurança hídrica acoplado à abordagem ecossistêmica, à resiliência e às soluções
baseadas na natureza. Talvez a popularização do conceito de One Health
( 2022) possa reabrir o debate, desde que este último também não seja
capturado por uma visão antropocênt rica e se torne prisioneiro desta. |
| URI: | http://hdl.handle.net/10174/42047 |
| Type: | article |
| Appears in Collections: | BIO - Artigos em Livros de Actas/Proceedings
|
Items in DSpace are protected by copyright, with all rights reserved, unless otherwise indicated.
|